Do livro que não li

 “Qual é a sua casa nessa confusão de paredes descascadas de amarelo-abóbora com sanefas moradas de batinas de bispo com janelas de verde-caturrita com tabiques de azul-anil com pilares rosados de sua rosa na mão (uáu aqui tem uma vírgula), que hora será em sua vida se estes infelizes desrespeitam minhas ordens…” Longos parágrafos sem pontos nem vírgulas com distintos pontos de vista mudanças repentinas do sujeito da frase ou não monólogo com elementos inexistentes e uso de palavras como maranguango burundanga para se referir a uma bebida com poderes mágicos para despertar o amor ou Juancito Trucupey que é na verdade um personagem de uma canção cubana ou dominicana. “E, porra…” na minha terceira tentativa de ler O outono do patriarca de Gabriel García Márquez eu não to conseguindo de novo! E é assim:

1-O parágrafo acima mostra um trecho do livro e uma breve explicação/exemplificação do que há em suas páginas, em relação ao formato do texto.

2-São frases apaixonantes como essa que coloquei aqui, além de tantas outras que me fazem parar e ler várias vezes cada palavra. (Ou porque as acho bonitas, ou porque não entendi bolhufas).

3-O conteúdo aborda basicamente a saga de um ditador. Nas palavras de Márquez, “um poema sobre a solidão do poder”.

Ou seja, numa conclusão tosca: “é tudo de bão! \o/” Mas, quando me dou conta, estou completamente perdida para fora. Para fora. Já não sei mais quem fala, para quem fala e, o mais importante de tudo, já não sinto vontade de descobrir. O outono do patriarca é uma pedra na minha estante, e que incomoda. Então acabo transformando a leitura mais numa obrigação do que num prazer…“E, porra…” falar dele está me dando uma puta vontade de lê-lo. Vai que dessa vez o negócio vai! Para finalizar, mais um pouco desse outono garcíez:

“Qual é você destas mulheres que cabeceiam nas salas vazias ventilando-se com a saia esparramada nas cadeiras de balanço bufando de calor por entre as pernas enquanto ele perguntava através dos buracos da janela onde vive Manuela Sánchez da minha loucura, a do vestido de espuma com brilhos de diamantes e o diadema de ouro maciço que ele lhe dera no primeiro aniversário da coroação, já sei quem é, senhor, disse alguém no tumulto, uma tetuda bundudinha que pensa que é a dono do mundo… ”   

Com um só retalho não se faz um ovo

Derrubei o ovo de retalhos. E agora, ele faz barulho…então comecei a pensar de que canto veio esse ovo e no fato de agora ele estar quebrado. Embora, isso só seja percebido de uma única forma: chacoalhando. O que me levou a pensar também nessas metáforas que acontecem. Metáforas como ações casuais, não pensadas, não refletidas e construídas e não, necessariamente, verdadeiras. Metáfora é metáfora, e quando ela acontece casualmente o processo é o inverso. Você entende. Eu não parei e pensei quero falar sobre determinada coisa, mas não explicitamente, quero uma metáfora. Simplesmente, o ovo veio até mim e eu, distraída, o chacoalhei.

Por onde anda Rocamadour

Mandei uma mensagem perguntando se já estava em terras do leite quente. Não deveria, mas me preocupa a ausência que, eu sei, é muito mais minha. Talvez, só minha. Será que ele ainda existe? A mensagem não foi. O visor do celular diz: Pendente. Tal qual os cachorros, que mostram a mesma característica do dono.  

Do dia que está por vir

Correr de bicicleta até o pedal ficar tão leve que pedalar já não fará diferença na velocidade. Mas no vento. Mas no rosto. Mas na pele. No olho, que vai arder e molhar levemente. Na alma, que vai estar em lugar nenhum. Distraída, sem foco. Pena que serão só 10 minutos. Mas me memotiva a ida e a volta.

Balanço

A princípio fiz esse blog pra colocar uns poemas e contos que escrevo às vezes. Não que eu ache que mando bem nesses tipos, mas volta e meia sai algo legal. Ou pelo menos saía. Nesse último semestre queria atualizar o blog frequentemente, mas não consegui fazer absolutamente nada. E olha que fiquei vários dias em frente ao “papel” branco, escreve, apaga, escreve, escreve, apaga.

Aliás, nesse último semestre não consegui fazer porra nenhuma. Faltei tudo o que podia e mais um pouco na faculdade, não me mudei de apartamento como pretendia, não economizei dinheiro, arrumei um novo estágio – mas continuo no infinito e magnífico mundo da assessoria, no qual sempre tem lugar pra mais um. Mas pelo menos agora é assessoria de um órgão e pelo fato de eu não precisar chegar perto de um colunista social vale a pena.

Nessa época também terminei e voltei com meu namorado. Foi conturbado. Mas agora estamos bem, combinando de descer de bike a Serra da Graciosa, tomando cerveja e jogando conversa fora até de madrugada e se endividando por querer aproveitar todos os tickets do acesso zero.

E quando eu vi já era abril, maio, junho e me dava um aperto no coração. Não sei por que, mas dava. Foi um semestre de muitos questionamentos e poucas conclusões. Nas férias meu único objetivo era ler meus livros que estão guardados e ainda não foram lidos. Mais uma vez não consegui cumprir. No entanto, mantive a ideia após as férias e já coloquei em prática. Espero que seja um sinal de que o próximo semestre será mais produtivo.

Bom, enfim. Comecei a escrever esse post na verdade pra dizer que eu odeio texto assim, que fica divagando sobre a vida e meio que não diz nada. Eu me coloco no lugar do leitor e acho super chato do tipo meu o que eu quero saber disso. Mas, em primeiro lugar, esse blog nem tem leitores mesmo, ou seja, whatever. Em segundo, talvez eu esteja mudando minha opinião sobre isso, talvez.

A possibilidade muda inunda o espaço fechado que se chama seu
Como se ele estivesse dentro e não você dentro dele
Na sacola esquecida num canto, não se sabe mais o que tem
No disco com o nome apagado, não se sabe mais o que toca
Na gaveta, a caneta sem tinta fala

Lucía. Lucía. Acorda. Eu estou acordada. É que estava pensando que podíamos conversar um pouco mais já que nós dois não conseguimos dormir. Eu não aguento mais conversar, desculpe. Tudo bem, mas é que pensei, olhe pra mim. Não consigo te olhar, o quarto está escuro. Então olhe na direção da minha voz. Aqui? Sim. Vou tocar na sua perna. Como sua mão está gelada. Eu sei, é que pensei que não ter certeza de nada abre muitas possibilidades. Eu disse que não quero mais conversar e você está começando mais uma vez. Não, eu não quero conversar. Eu quero dormir. Faz tempo que você quer dormir e não consegue. Talvez eu queira continuar tentando. Por que às vezes você demora tanto para compreender algo tão simples? Eu não estou tentando entender nada. Você faz isso por querer ou é sincero? Por querer. Antes você sempre dizia que era sincero. Agora não é mais. Você não é mais sincera? Não. E o que você é? Não sei. Isso foi sincero? Muito. Que bonito você rindo. Você nem está me vendo rindo. Mas eu escutei e senti. Eu já disse que sua mão está gelada e aí ela parece mais gelada ainda. É como ver o seu sorriso, você entendeu? Eu sei que entendeu, porque você sempre começa a rir sem parar assim quando entende. Eu estou rindo porque isso está fazendo cócegas. Então você não compreendeu? É claro que sim, mas isso só faz sentido por causa do escuro. O escuro dá o tom de incerteza e era sobre isso que você queria tanto conversar? O que você acha disso? Acho que ainda vai demorar para amanhecer.

Já passava das sete horas, três minutos exatos. Não havia mais sentido em dormir e, como uma consequência, também não havia mais sentido em nada. E o problema não era simplesmente encontrar um. Mas também questionar o processo. Apesar disso ser um fato, Lucía se esquivava na cama e deixava os pensamentos irem por querer. Não queria vivenciá-los. Acreditava que isso a levaria a buscar uma conclusão, talvez uma certeza, e isso, com certeza, era a última coisa que queria sentir.

Marina sempre chegava à casa amarela faltando cinco minutos para a meia noite. Fechava a porta e, no caminho até o banheiro, tirava a roupa e a jogava no chão, sem se preocupar com a bagunça. Tomava um banho bem quente de, no mínimo, meia hora e saia nua pela sala, com a pele branca vermelha. Marina morava ali há seis anos, desde que seu pai faleceu, mas sempre chamou a casa de casa amarela e nunca de sua. Uma hora da manhã Bruno ligava para perguntar: Tudo bem?

Mas hoje Marina chegou à casa amarela, molhada da chuva, e abriu uma das garrafas de vinho tinto seco do armário de seu pai. Sentou no sofá, que logo se encharcou da água que escorria de suas roupas e, bebendo o líquido em uma taça, chorou. O telefone tocou ininterruptamente entre uma hora e uma hora e meia da manhã. Sem saber se tudo estava bem, Bruno teve enfim a certeza de que a amava. E ter essa certeza o irritava tanto quanto a sua pontualidade para telefonar. Mas Bruno sabia que ele era inevitável demais para não ser tão óbvio.

Lobato achava que a criação do radiotransporte tranquilizaria o mundo. Tudo poderia ser feito sem sair de casa, o trânsito iria se extinguir, as pessoas sairiam a pé para passear, passar o tempo, que, agora, ficou sobrando. Engano.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.